Diretora da COP30 em Belém acusa EUA de travar políticas climáticas de outros países
Com sua estratégia comercial, os Estados Unidos "têm influenciado muito negativamente" as políticas climáticas de outros países, afirma Ana Toni, diretora-executiva da COP30 em Belém e que promove este ano um "mapa do caminho" para o abandono dos combustíveis fósseis.
Em uma conversa com a AFP a poucas semanas da cúpula do clima organizada pela ONU em Antalya (de 9 a 20 de novembro), na Turquia, Toni criticou a "falta de solidariedade" das nações mais ricas com os países em desenvolvimento, que reivindicam recursos financeiros para sua adaptação às mudanças climáticas.
Também criticou os Estados Unidos, que por decisão de seu presidente, Donald Trump, se retiraram do Acordo de Paris em 2025 e, com sua política transacional de tarifas e pressões, estão condicionando, segundo ela, o cumprimento da agenda climática por parte de países terceiros.
Os Estados Unidos, "direta e indiretamente, têm influenciado muito negativamente a implementação e a habilidade de outros países avançarem na sua implementação" de medidas para combater o aquecimento global, disse a CEO da COP30 realizada em Belém no ano passado.
Para ela, a rivalidade entre Estados Unidos e China pesa neste tema.
Os países "estão mais resistentes em importar produtos de baixo carbono chineses, por medo de retaliação" dos EUA ou porque Washington tem "pressionado esses países para comprar produtos de maior calor, de intensidade de carbono" e de fabricação americana.
"Isso, logicamente, retarda a capacidade desses países em implementar metas mais ambiciosas de descarbonização", afirmou.
- Transição voluntária -
Toni destacou que a crise no Estreito de Ormuz, que se traduziu em escassez de combustível na Ásia e aumentos generalizados nos preços da energia, demonstra que a dependência do petróleo pode ser "muito danosa para um equilíbrio geral" do mundo.
Isto "demonstra que transitar para longe dos combustíveis fósseis não é só para combater a mudança do clima, mas também um problema de soberania, é para resolver um problema econômico, para dar segurança energética", explicou à AFP.
Após um acordo histórico em 2023, em Dubai, no qual foi anunciado o "início do fim" dos combustíveis fósseis, o tema acabou ficando de fora da reunião de Belém dois anos depois, devido à pressão dos países produtores.
A Presidência brasileira se comprometeu a promover um "mapa do caminho" global de saída progressiva e voluntária do petróleo, do carvão e do gás.
Toni teve um papel fundamental neste documento, que será apresentado no início de novembro, poucos dias antes da reunião em Antalya, onde a Austrália, grande exportadora de carvão, ficará encarregada de conduzir as negociações.
A CEO da COP30 detalhou que este texto não fará recomendações por cada país, nem estabelecerá metas numéricas ou cronogramas, mas tratará da formulação de maneira geral, de acordo com o grau de dependência de cada nação em relação aos combustíveis fósseis.
"Todos os países podem avançar para diminuir sua exposição [aos hidrocarbonetos] e andar no caminho da transição, mesmo que eles partam de lugares muito diferentes", declarou.
- "O que precisa acontecer?" -
A dirigente considerou como "positivo" a Turquia promover voluntariamente a eletrificação de diversos setores econômicos (transporte, construção, indústria) para reduzir as emissões.
Algumas organizações ambientais alertam que o aumento previsto por Ancara — 35% de eletricidade no consumo energético global até 2035 — deve vir de fontes renováveis.
Por outro lado, Toni lamentou que os países mais ricos não estejam dispostos a aumentar suas contribuições financeiras, apesar do choque causado pelo mortal colapso de uma geleira no Nepal, que os climatologistas relacionam ao aquecimento global.
"A gente se pergunta o que precisa acontecer se aquelas imagens que a gente viu do Nepal não estão sensibilizando, não só os países, mas principalmente a população dos países ricos", disse.
O Brasil elegerá seu próximo presidente em 25 de outubro, no segundo turno da eleição, entre o incumbente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que obteve o maior número de votos no primeiro turno.
Em caso de mudança, Toni pede que não seja retomada a política do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), pai de Flávio, de desmatamento maciço e que seja mantida a tendência do último ano, em que a Amazônia Legal registrou o menor nível de desmatamento da última década.
Segundo ela, esta política não foi boa apenas para o meio ambiente, mas também fundamental para as relações comerciais e diplomáticas do Brasil.
"O próprio agro brasileiro deveria lutar para que isso fosse mantido", completou.
N.Rollin--PP