Vitória de Lula gera turbulência nos mercados, que temem descontrole dos gastos
A histórica reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez os mercados tremerem nesta segunda-feira (26). Os investidores contavam com a vitória de seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), e agora temem que o presidente governe sem disciplina fiscal em seu quarto mandato.
A Bolsa de Valores de São Paulo, que apostava em uma vitória de Flávio após seu bom desempenho no primeiro turno, despencou quase 17% na abertura dos mercados nesta segunda e fechou com queda de quase 14%.
A forte queda do índice de referência Ibovespa provocou até mesmo a suspensão das negociações por 30 minutos, algo que não acontecia desde a instabilidade causada pela pandemia em 2020.
Contra todas as previsões e prestes a completar 81 anos, Lula reverteu o resultado no segundo turno e venceu por quase 52% a 48%.
"Ninguém tinha esse resultado no radar", disse à AFP Leandro Gabiati, da consultoria política Dominium, em Brasília.
Isso "surpreende muito os agentes econômicos, que já contavam com um governo Flávio, com uma transição política a partir de hoje", acrescentou.
Além do tombo da bolsa, o preço do dólar disparou e fechou com alta de 8%, cotado a 5,40 reais.
Em um contexto de deterioração fiscal, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro defendia um "corte drástico" nos gastos públicos, embora sem detalhar quais setores seriam afetados. Além disso, ele próprio fez promessas de investimentos em políticas sociais.
— O problema fiscal —
O Estado brasileiro gasta mais do que arrecada, a dívida pública supera 80% do PIB e o Banco Central mantém uma das taxas de juros mais altas do mundo para conter a inflação.
A desaceleração econômica no horizonte aumenta os desafios.
Na reta final de sua campanha, Lula anunciou medidas dispendiosas, como um aumento no valor das transferências do Bolsa Família, o perdão de dívidas de microempreendedores e outros benefícios.
"Lula fez várias promessas de gastos, e isso precisa ser incorporado aos preços", afirmou André Perfeito, economista-chefe da instituição financeira Garantia Capital.
"Uma reforma fiscal sólida é o preço que o Lula 4 precisa pagar para recuperar a confiança do mercado", opinou o analista Mariano Machado, da empresa de análise de riscos Verisk Maplecroft.
Depois de uma primeira fase de "volatilidade", nos mercados, "um plano crível para conter os gastos dará o tom para 2027 e os anos seguintes", acrescentou.
Também será necessário "esperar a transição para saber quais figuras políticas integrarão o governo, se haverá uma aliança com o centro" em cargos estratégicos e "quem será o ministro da Economia", observou Gabiati.
— Congresso conservador —
A expressiva vitória da direita no primeiro turno, no qual os brasileiros renovaram parte do Congresso e ampliaram a bancada conservadora, pode afetar a governabilidade de Lula.
Mas também pode funcionar como um freio à falta de controle dos gastos, apontam analistas.
"A guinada à direita no Congresso se mantém mesmo após a vitória de Lula, o que deve limitar a capacidade do governo de implementar uma agenda fiscal significativamente mais frouxa", afirmam os analistas do Deutsche Bank.
A turbulência nos mercados não decorre apenas das possíveis políticas adotadas pelo político de esquerda.
Outro ponto crucial será "a rapidez com que Bolsonaro aceitará os resultados", alertou Chris Turner, analista do ING.
Flávio Bolsonaro ainda não reconheceu a reeleição do presidente Lula, mas nesta segunda-feira assegurou que irá liderar a oposição ao governo do petista.
"Uma vez assimilados o prêmio eleitoral imediato (o impacto sobre os valores de mercado, ndlr) e a contestação do resultado por parte de Bolsonaro, a grande incógnita para os ativos brasileiros será se Lula conseguirá aproveitar essa limitação imposta pelo Congresso para estabelecer uma trajetória fiscal crível", afirmaram os analistas do Deutsche Bank.
B.Pichon--PP