Petit Parisien - Fuga de Flávio Bolsonaro coloca à prova relação Brasil-EUA

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Fuga de Flávio Bolsonaro coloca à prova relação Brasil-EUA
Fuga de Flávio Bolsonaro coloca à prova relação Brasil-EUA / foto: Aaron Schwartz, Sergio LIMA - AFP

Fuga de Flávio Bolsonaro coloca à prova relação Brasil-EUA

A fuga do candidato presidencial derrotado Flávio Bolsonaro (PL), que supostamente estaria a caminho dos Estados Unidos, colocará à prova a relação entre Brasília e Washington, marcada por muitos altos e baixos com Donald Trump na Casa Branca.

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A inesperada vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representou uma decepção para o governo Trump, que ansiava por conquistar uma grande vitória estratégica na região.

Mas as acusações de fraude eleitoral feitas por Bolsonaro e sua decisão dramática de deixar o país guardam semelhanças com uma das obsessões de Trump: as eleições de 2020, que ele perdeu para o democrata Joe Biden.

"Francamente, pareceu outra eleição fraudada... Parecia tão corrupta, tão terrível", disse Trump a jornalistas em Washington, ao falar sobre as eleições presidenciais brasileiras.

A Polícia Federal agiu para impedir a saída de Flávio Bolsonaro ao intimá-lo para que entregasse seus passaportes, mas tudo indica que agiu tarde demais e que ele já deixou o país, segundo veículos de comunicação.

O Departamento de Estado concederá um visto a Flávio Bolsonaro e à sua família, explicou uma fonte diplomática em Washington.

A fuga de Bolsonaro para os Estados Unidos seria "vergonhosa", declarou Lula.

Uma fonte do governo brasileiro, que falou sob condição de anonimato, disse que a declaração de Trump feita na segunda-feira sobre as eleições brasileiras é um "chororô de perdedor" que não merece resposta.

Ainda assim, acrescentou a fonte, o governo Lula aposta em uma "relação correta" com os Estados Unidos e avalia que isso dependerá da postura de Washington, cujo equilíbrio de forças internas pode ser afetado pelas eleições de meio de mandato.

- Mais hostilidade -

"Se as coisas seguirem por esse caminho e os Estados Unidos insistirem que as eleições são ilegítimas, acho que isso vai aumentar ainda mais a hostilidade entre Trump e Lula", explica Evan Ellis, especialista do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em entrevista à AFP.

Com um agravante, adverte o especialista: "Lula estará livre de futuras disputas eleitorais", assim como Trump.

Lula e Trump não têm problemas em conversar por telefone e já se reuniram frente a frente. Em cada ocasião, elogiam-se em público, para depois voltarem às respectivas posições.

Os Estados Unidos ainda não têm um embaixador em Brasília, por causa das desconfianças do governo Lula durante a campanha eleitoral.

A embaixadora brasileira em Washington encontra-se em um limbo diplomático, oficialmente sem visto.

Um Lula deslegitimado por Trump pode sentir-se tentado a "redobrar a pressão contra o governo Trump em tudo, desde sua campanha contra os cartéis até Cuba, Irã, Israel, as tarifas...", enumera Evan Ellis.

- Parceiros porém rivais -

O Brasil é o gigante comercial da América do Sul, fornecedor de matérias-primas, café e carne para os Estados Unidos, insumos importantes na luta de Trump contra a inflação, que por enquanto o republicano não consegue controlar.

Washington também quer obter do Brasil o compromisso de se afastar da China e fechar acordos em temas como terras raras, importantes para o setor tecnológico. Mas Lula é uma referência internacional, vencedor de quatro eleições.

"Ele gosta da diplomacia presidencial. E o Brasil se viu incentivado a diversificar suas relações" diante da política agressiva de Trump, opina Larissa Wachholz, especialista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

O governo Lula é ainda a ponta de lança da esquerda latino-americana diante do Escudo das Américas, a ambiciosa iniciativa de Trump em uma região que virou drasticamente à direita.

Do ponto de vista da segurança regional e do combate ao crime organizado, o Brasil pode enfrentar dificuldades não só com Washington, mas também com seus vizinhos.

"Acho que há possibilidades na hora de compartilhar inteligência, informações financeiras, bancárias, na medida do possível" entre Washington e Brasília, aponta James Story, ex-diplomata e fundador da consultoria Global Frontier Advisors.

Mas, na medida em que o Escudo das Américas signifique operações militares conjuntas na região, Brasília ficará à margem, prevê o especialista.

"O Brasil traça seu próprio caminho em muitos desses temas. Então não espero que seja particularmente útil em nenhum deles, nem acredito que o governo dos Estados Unidos vá recorrer ao Brasil para que ajude", opina.

P.Bouvier--PP